quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Como tanto amamos





Alma minha que se perde em prantos
Deixa que o tempo te alivie a dor
Cala teu pranto, te entrega ao canto
Que ninguém ouve esse teu clamor


Cala teu grito com teu silêncio
Ou fala baixinho os teus anseios
Não te culpes por sozinha estares
Que todos temos nossos receios


Se estou só, não é tua a culpa
Pois bem sabes o quanto amei
E tu comigo, te entregaste tanto
Que choraste os prantos que não chorei


Bem sabes que ficaram encantos
Nos sonhos que de lá trouxemos
Tão vivos que em nós nos faz
Viver momentos que já vivemos


Não te entregues a tantos prantos
Lembra comigo o que já passamos
Quem como nós, minha alma triste,
Tanto amou como nós amamos?


José João

Minha alma





Qual inocente pomba que no céu se perde
Voando a esmo em perdido espaço
Gemendo triste, o coração partido
Pelo pobre filho que caiu no laço


Qual alvo lírio que no prado murcha
Pelo cruel calor de ardente estio
Ou como peixe em agonia lenta
Porque sem água lhe secou o rio


Assim minha alma no espaço chora
Pede aflita e não escolhe a hora
Qual mãe que a vida do filho implora


Que um dia encontre um doce regaço
De que preciso e sem o qual não passo
Bem pode ser qualquer terno abraço.


José João

Renascer





Eu era a flor da beira da estrada
Que entre tantas ninguém olhava
Passavam constantes os caminhantes
Mas minhas lágrimas ninguém notava


Enfeitava o prado e meus dias tristes
Esperava o dia que alguém me olhasse
Nas manhãs choradas pelo orvalho frio
Quem dera houvesse quem me secasse...


Um dia então, sem que esperasse
Grosseira mão me arrancou do galho
Me apertava tanto mas sem emoção
Que a dois passos me atirou no chão!


Que triste destino a mim se impunha
Somente uma folha como companheira
Cadáver de estrada, que morte banal!
E por sepultura só pedra e areia


Mas eis que me vem da mão do destino
Cantando alegre um feliz passarinho
Me olha risonho, me faz reviver
Com todo carinho me põe em seu ninho.


José João

A procura





De longe, ao som do tempo te ouço a voz
Como brisa tímida que não quer chegar
Que toma voltas em volteios tristes
Com medo de, ao ser ouvida, fazer chorar


Por vezes penso te ouvir o canto a me embalar
Em perdidos sonhos, nos fragmentos do meu pensar
E me entrego todo aos devaneios de tempos idos
Que em tristes sombras do passado foram perdidos


Vem a saudade em tristes cantos cantados em prantos
Sob os acordes de afinadas cordas da solidão
Que em silêncio canta em triste dó, por dó de mim
Que até a dor, por solidária, se faz canção


E assim me entrego ao pensar de ouvir tua voz
Como um breve canto ou leve pranto a me levar
Em perdidas buscas, por entre perdas, te procurar
Ou em perdidos sonhos quase esquecidos, te encontrar.


José João

Não é estrela



Em triste canto a noite chora
Estrelas fogem da bela aurora
Que enfeitada recebe o dia
Enquanto a noite já vai embora...


Mas uma estrela rebelde fica
Quase sem luz, do sol se esconde
A noite a chama gritando aflita
Mas a estrela não lhe responde


Apenas eu que lhe vejo o brilho
Embora aos olhos seja invisível
Minha alma a acompanha sempre
Jamais lhe deixa em mim ausente


As vezes penso lhe ouvir o canto
Ao som de harpas e voz tão bela
Minha alma alerta, me diz baixinho
Não é estrela, são os olhos dela.


José João

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O fim da poesia





Chorar a dor da perda
Até os olhos ficarem vazios
De lágrimas e de sonhos.
Gritar a saudade e a angustia
Como se a vida fosse apenas um dia,
Como se apenas um dia fosse sempre.
Banhar-se com as lágrimas da alma
Que no vazio, perdida, se entrega toda
Ao pranto doce da saudade
Que se mistura ao pranto amargo
Da dor infinda que fica mais forte
Quando os sonhos se fazem
De tristes lembranças
Ficando no tempo por teimosia
Da alma, que insiste em lembrar,
Como se assim fosse voltar, fosse ficar,
Tentativa vã de recomeçar,
Como se não fosse o fim da poesia,
Como se a poesia não tivesse fim.


José João

A poesia que não fiz





As vezes me sinto tão triste
Que até a poesia se esconde de mim,
Lá dentro, no meu intimo.
Sei que ela está lá, guardada,
Mas se recusa sair
Talvez porque queira ser alegre.
Ah! Essa minha triste tristeza,
Que ousada me toma o tempo,
Dita os momentos e comanda o pranto,
Que por gosto do desgosto
Se faz de sempre, se faz de tanto.
Fecho os olhos como se buscasse sonhos,
Deixo o pensamento voar no tempo,
O caderno deitado em minha frente,
O lápis inquieto ente os dedos,
A ansiedade de encontrar a poesia
Se faz viva, por ser tão forte,
Mas parece que ela não vem
Talvez porque hoje não seja o dia
De escrever uma poesia triste.
Vou deixa-la guardada dentro de mim,
Não porque eu queira
Mas por sua vontade de não vir
Ser mais forte que eu.


José João 

Quando é adeus





Na boca
O gosto de uma noite fria,
O hálito com cheiro de saudade,
Os olhos...ficaram como janelas vazias,
E a vontade...
Não era de chorar, nem gritar
Era de apenas não existir.
Lá atraz ficaram os sonhos,
Cansados de tão velhos
E os novos ficaram moribundos
Sem vontade de serem sonhados
O pensameneto se fez artesão,
Tecia fragmentos de recordações
Umidecendo com lágrimas
E agilmente formava blocos de solidão
Onde o adeus se deitava comodamente
E a angustia se fazia de anfitriã
Para a dor que estava chegando
Desvagar, sem nenhuma pressa.
Porque o tempo se arrasta lento
Para quem um adeus se faz de sempre?


José João

Ser por não ser





Talvez tenha sido os rastros
Do nada na areia
Que me levaram a procurar por mim
Escrevendo versos sem sentido,
Que não dizem quem sou
E talvez atré finjam
Quando dizem o que sou.
Talvez tenha sido os rastros
Do vento no tempo
Que me fizeram a curiosidade de ir...
Sempre, até onde vai..
A tentação de ser gente.
Talvez tenha sido a poesia não escrita
Que me ensinou a gritar em silêncio
Palavras que os versos escolhem
Para dizer o que não sabemos
Ou temos mêdo de falar,
Talvez tenha sido minha covardia
Balbuciar palavras
Que deveriam ser gritadas,
Ou talvez tenha sido incoesrência
Buscar caminhos que o destino não traçou.
Não sei, talvez tenha sido apenas
... mêdo.


José João

Eu, meu amigo





Ontem estive muito só
Caminhei dentro de mim, contei o tempo,
Conversei comigo minhas verdades,
Minhas mentiras, meus conflitos,
Ouvi minha voz me dizendo coisas
Que jamais um dia pensei ouvir.
Ontem me fiz de meu amigo,
Meu único e melhor amigo,
Choramos juntos, lembramos juntos,
Conversamos nossas loucuras,
Falamos do que nunca fomos.
Nossas palavras eram gritadas
No meu silêncio,
Como se a vontade de não estar só
Fosse maior que minha própria presença,
E se minhas mãos se tocavam,
Fechava os olhos para imaginar
Que eram carinhos de alguém
Me fazendo lutar, viver, ser gente.
Ontem finalmente encontrei um amigo
Eu, e até aprendemos coisas
Que só a vida pode ensinar,
Sem palavras, sem gritos...
Aprendi que para estar só
Não preciso de ninguém.


José João

Labirintos



Labirintos que se fizeram estradas
Em que me perdi sem saber onde vou
Pois os rastros deixados se deixaram apagar
Pelo sopro do tempo que também me apagou,
São tantas entradas. Saídas onde estão?
O fio, se deixaram, com o tempo se perdeu.
Entre tantas paredes da cor da angustia
Estreitas passagens sufocam meu canto,
Que agudos gemidos do peito saídos
Em prantos caídos, são orações que rezei,
Sem saber que por caminhos perdidos
Em bêbados passos andaria outra vez.
São tantas passagens, idas, lágrimas e voltas
Todas me levam ao mesmo lugar, até parece
Que ir ou voltar é o mesmo que estar,
Assim não me importam outros caminhos
Entre voltas, volteios, paradas e anseios
Me sento cansado no labirinto e perdido,
Me entrego um vagar, um sonho esquecido
Que por sorte o destino me permitiu de guardar
Já que a vida por tanto mero capricho
Num labirinto me prende. Para sempre?
Também não importa, nem quero saber
Em qualquer lugar o pranto será o mesmo.

José João