terça-feira, 7 de abril de 2026

Um amor profano

 Trazia no peito o gosto de um louco amor insano,
Com ele a dor de um adeus que nunca mais se foi,
Uma saudade, dessas que a alma grita em prantos.
Como pode doer tanto a dor de um amor profano!?

Um amor que nem deveria ter um dia acontecido
Tão pecadores, aqueles que a ele se entregaram
Que pecado incoerente de um dia terem amado!!
Agora, no adeus, perceberam o tanto que pecaram

Se foram as juras, os segredos, agora só saudade
De quem, por tanta culpa, nem merece ser lembrado
Nunca é divino, mesmo belo, viver-se um pecado? 

Agora é um adeus, um vazio, um vago lembrar,
Quem, por justa razão, vai primeiro esquecer?
Dá-se a um amar profano, o castigo é... viver.

José João
07/04/2.026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Os poetas... fingem na hora certa.

 A quanto tempo!! Quantos outonos! Folhas caídas...
A quanto tempo!! Quantas primaveras! Flores nascem,
Se abrem ao mundo, enfeitam e perfumam o tempo
Mas a saudade continua... das horas amenas vividas

Faz tanto tempo! Quantos verões e invernos passados!!
Quantas noites acordado num impossível contar estrelas.
Ouvindo do vento, vindo de longe, com um terno canto!
Trazendo recordações de momentos e com ela o pranto!

Sentado na beira do tempo, a ouvir meu próprio silêncio
Contar histórias de mim e me confessar inocente pecador,
Sentir na alma, o prazer da saudade e a dor de um adeus
Então, inventar orações, gritar heresias sem nenhum pudor

Há quanto tempo! Desde muito me pus a criar fantasias,
Fabricar ilusões com gosto de verdade, num falso fingir
E assim enganar a mim mesmo, como fazem os poetas
Fica tão verdadeiro o fingir por fingirem nas horas certas 

José João
06/04/2.026

domingo, 5 de abril de 2026

Quando o amor chegar

 Quando o amor chegar
Vou me lavar com o orvalho da madrugada
Me perfumar com o perfume do campo
Vestir roupa nova, começar nova jornada

Vou cantar canções, que ainda nem fiz
Cantigas alegres de alegrar corações
Pintar o mundo com tinta de cor verniz
E ouvir o que voz do amor me diz

Quando o amor chegar
Vou recomeçar no sentido norte
Me vestir de primavera
Me vestir de flores e ficar mais forte. 

Quando o amor chegar
Vou me fazer de jardineiro,
De estrelas plantar um canteiro
Para no brilho delas...sentir teu olhar

Mas... quando o amor se for
Vou pintar o tempo cor de saudade
Vou ir sem pressa, indo devagar
Esperando outro abril chegar

José João
05/04/2.026

sábado, 4 de abril de 2026

Ainda existe... apenas não vemos mais

 Agora dizem, antes, a vida tinha pausa e momentos únicos,
Para mim, a vida continua tendo pausas e seus momentos 
Os meus, são os mesmos, não mudaram, ficaram em mim
Ainda sinto a ternura do primeiro beijo, foi num jardim

Ainda vejo a primavera, sempre florida, com novas flores
De cada uma, ainda lembro o sabor doce de seus perfumes
A algazarra dos pássaros no alvor do dia, cantando hinos
A alegria das borboletas e beija-flores, ainda é costume

Nas noites, os vagalumes, como nossas estrelas luminosas, 
Iluminavam, cintilantes, o campo numa orgia de luzes.
O rio, cantando uma canção que ninguém sabia, só ouvia
Lua e estrelas refletidas no rio era outro céu, a gente via

Agora dizem, antes a vida tinha pausa e momentos únicos,
Se tudo isso era uma pausa que vida dava para vivermos
É de lamentar, não mudou, essa pausa ela continua dando 
Nós é que nos perdemos, a tudo isso não estamos olhando

Aí dizem, o tempo fica mais lento, se se vive coisas novas.
Coisas novas, para quê? Não se ama mais como antigamente
Quem ainda sabe dizer: eu te amo, com a alma em risos?
Quem, hoje sabe dizer: que nosso amor viva eternamente?

Aquele lugar, esse lugar que agora chamam de antigamente,
Que bom! Ah! Quem dera pudesse voltar! Lá eu era gente,
Trouxe muito de lá, aprendi que o tempo conta os momentos
E cada momento que se vive, com certeza, é um novo presente.

José João
04/04/2.026

terça-feira, 31 de março de 2026

A doçura de uma saudade

A doçura de uma saudade alegre lhe prateava os olhos
E os lábios, tremendo, balbuciavam um nome querido
Como fosse uma oração a ser rezada em solene contrição,
O momento se fazia de um lugar em que ele havia vivido

Sorria para o horizonte como se nele estivesse guardado
Sua preciosa relíquia que um dia, um triste adeus a levou,
Mas continuava murmurando o nome que a alma santificou,
O brilhar do olhos desenhava a imagem que sempre guardou

Entre sorrir e chorar, entre quase alegre e triste, se perde
Dentro de um pensamento tão forte que sentiu o perfume
Nunca esquecido, sempre ali, como se lhe fosse parte de si,
Inventava orações, cantava hinos, entre risos e queixumes

E assim, corria pelo tempo, entre os anos, meses e dias
Até os detalhes lhes vinham como pedaços de si mesmo
E faziam-se completos como se até eles estivessem vivos
Como se a ele, tivesse o tempo lhes deixado cativos.

José João
31/03/2.026

segunda-feira, 30 de março de 2026

Esse meu jovem rosto de hoje!!

 Meu jovem rosto de hoje, no espelho, sorri lembrando
Que há algum tempo não lhe via as novidades de agora,
Ontem era aceso, riso fácil, inconsequente e muito alegre
Hoje, mais jovem que ontem, e novas marcas chegando

Amanhã, esse rosto, com certeza terá novas expressões
Lábios contornados por sinais do tempo, a seu gosto
Na fronte, os cabelos mais grisalhos, olhos mais caídos,
A testa mais franzida, este será, amanhã, meu novo rosto

Todos os dias meu rosto se renova se fazendo diferente
Não é aquela mesmice de todos os dias ser o mesmo rosto
Tenho a curiosidade de vê-lo amanhã, com novas marcas
Sorrindo por prazer de sorrir, sem saber o que é ser carente

Até a maneira de fazer barba é diferente, é mais cuidadosa,
Os detalhes de agora fazem que os gestos sejam delicados
Nos vemos olhando nossos olhos é uma hora prazerosa
No espelho vemos o jovem rosto de hoje com mais cuidado

José João
30/03/2.026

domingo, 29 de março de 2026

Poesia... uma oração santificada

 ... Se sou poeta, ainda não sei, a poesia é santificada,
Eu sou pecador, profano a poesia com palavras soltas
Nas entrelinhas escrevo ideias perdidas, sem sentido
A poesia é oração, então como orar com palavras rotas?

... Se sou poeta, não sei. Não sei eternizar a poesia,
Apenas escrevo o que sinto, sem bem saber o sentir,
Escrevo prantos e saudades misturadas com alegria
Assim, as vezes finjo. Não sei se o poeta sabe fingir.

Conto minhas dores, dores alheias em versos avulso
Por vezes me perco em rimas que não sei por onde vão
Não raro, chorando prantos e sorrindo, fico confuso
Não sei se assim a poesia está dizendo sim ou  não

Se escrevo sobre flores, não falo da beleza do perfume
Só das pétalas, como se o perfume não tivesse beleza,
Ser poeta e dizer que da flor o perfume é só queixume
Não é bem ser poeta, não é ter na alma a medida certa

Mas vou aprender, dos pássaros, já traduzo o gorjeio,
Já converso com as estrelas no silêncio da madrugada,
Aprendi cantar com a brisa para esconder meus anseios
Mas, pelo menos, sei que a poesia uma oração consagrada

José João
29/03/2.026

Será que é medo de sonhar outra vez?

 Vai-se, e há muito tempo, meu primeiro sonho desperto
Sonho que sonhei bem antes de saber o que era um adeus,
Até hoje lembro, e até me assusto, de ainda estar tão vivo
Não sei se foi o único ou o derradeiro mas sinto ainda perto

Sei, e a mim não nego, que esse sonho me fez diferente
Desde que o tive outro sonho não sonhei, porque, não sei
Mas se chegava de mansinho um motivo de outro sonhar
Lá me vem ele correndo gritando: você não está carente

Mas...  até hoje pergunto, como posso ainda estar sonhando
O mesmo sonho? Como pode se fazer de último o primeiro?
O que não fiz, ou fiz, para o primeiro se fazer de derradeiro?

Sonhos são para serem sonhados, mas só sonhei o primeiro?
Nem mais outro sonho sonhei, ainda que, por favor, pedindo
Será que com medo de sonhar outro sonho... estou fingindo?

José João
29/03/2.026