quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Confissionário

Ontem, eu sei ... fui bem além de mim,
Disse tudo que queria dizer e muito mais,
Bem em sua frente, tentava olhar seus olhos,
Mas ela até parecia não tê-los. Ali, diante de mim,
Parada, inerte, em assombrosa passividade,
Me ouvia calada. Meus gritos e os da alma
Se faziam ouvir, blasfêmias, injurias, palavras
Gritadas, algumas cheias de ira, até mesmo rancor,
Eram ditas, e ela, calada, sem nenhum movimento,
Ouvia tudo, em pé, na minha frente, muda e passiva.
Meus gritos espantavam o silêncio, até a solidão,
Escondida num canto, perto dela, assustou-se,
Correu por dentro da noite como se minha raiva
Lhe perseguisse. E ela...ela me ouvia muda,
Insensível, quanto mais ela me impunha silêncio
Mais eu gritava, se minhas mãos lhes tocavam...
Sentia a frieza, a dureza de quem não sabe sentir,
Como não lhe tivesse sobrado sentimento nenhum
Me enfurecia mais, e muito mais eu gritava...
Furioso, lhe falei tudo que uma quase loucura
Me permitia falar. Cansei, um pranto avulso
Tomou conta de mim... sentei no chão, incoerente ...
Encostei minha cabeça nela e ...dormi...dormi
Essa foi a primeira vez que conversei, que gritei
Que me confessei com a parede do meu quarto.

José João
01/09/2.016



2 comentários:

  1. Que que é isso, José João!!!! Eu to gritando até agora!!! Perfeição, é o grito que mais sai!!! Lindo!!! O ouvinte revelado ao final foi SURPREENDENTE!!! Perdi as palavras... Como sempre EXCEPCIONAL!!!!

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  2. Obrigado, Mariane. Obrigado de coração. Abraços.

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