quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dizem que nasci chorando


Dizem que minha alma é triste, que nasceu chorando,
Que meu canto é pranto e que nunca aprendi cantar
Calo, porque nasci assim. Assim como qualquer nascer
Se canto prantos, é por que a vida me ensinou sofrer

Canto saudades, choro angustias, não aprendi calar
A solidão que me fala tanto e tanto me faz lembrar
Em momentos idos que a vida fez por não esquecer
Fazendo que por entre prantos fique este meu viver

Mas se nasci assim, com meu pranto sendo sorriso
De que então, a não ser  saudade, do que mais preciso?
Se tenho a dor de sempre pra chorar.Não é bom motivo?

Mas de meu canto, que dizem ser pranto, eu apenas ouço
Um leve, tênue sussurro, como se da alma fosse oração
Fervorosa, silenciosa gritando com todas as forças do coração


José João









quarta-feira, 30 de maio de 2012

Terna doçura de amar


Amar, sei que amei, com paixão, loucura, sem medos
Que me fizessem não entregar a própria vida e mais,
A alma, que voava feliz entre momentos que os sonhos
Invejavam  e até se escondiam, por não serem tão reais

Os pássaros inventavam novos trinados quando viam
O brilho de nossos olhos. A brisa volteava sutil e leve
Como doces carinhos a nos enlaçar entre os jardins
Onde as flores recitavam versos ditos por querubins

A tanta inocente e sublime beleza, na terna doçura de amar
Numa entrega mais que divina, a mesmo santificar o amor
Que florescia como vida, e ao mundo, só fazia embelezar

Não sei quem, por tanta inveja, ou por maldade fez assim
Te levar por entre mundos de horizontes talvez sem cor
Deixando em teu lugar esta saudade, essa angustia, essa dor.

José João

terça-feira, 29 de maio de 2012

Teus rastros


Ainda hoje vou por caminhos perdidos e até não sei
Onde me levarão, talvez me levem para mais longe
De todas as estradas e horizontes que um  dia andei
Talvez me levem para além dos sonhos que já sonhei

Sigo por ruas, estradas, veredas, labirintos perdidos
Cheios de solidão por mim levada no peito em chama
E a angustia a brincar comigo, insiste e nem mais ligo
Em perguntar se esta dor é oração ou é só castigo

Sol a pino, até sombras no chão se deitam pelo calor
Que queima o tempo, queima a alma que chora a dor
Da ausência tão sentida que nem a morte lhe é temor

Caminhos tem, tantos, e tantos mais pra poder seguir
Os rastros que a saudade por compaixão deixou ficar
Teu perfume que o tempo, ao vento, não permitiu levar


José João







Me fizeste poder tudo


Onde quer que eu vá, ou onde esteja, não importa
Sempre vão estar, teu sorriso, a saudade e meu pranto
Sempre estarão comigo os momentos que vivemos
E sempre pra mim e pra alma  serão como divino canto

No universo mais distante se me fosse permitido estar
Comigo estarias, em pensamentos ou no meu sonhar
Não há distância no mundo, que a mim  possa impedir
De sentir tua presença dentro da minha loucura de existir

E que loucura esta seria não fosse tua presença na saudade
Que me toma como se fosses minha própria alma a me dizer
Que tudo que fiz, que senti, ou que vivi, tu que me fizeste viver

Me tomaste dos meus medos, dos meus temores de amar
Fizeste renascer a vontade de querer ao mundo bem alto gritar
Que tudo podia, tudo, até mesmo pela tua ausência ...chorar.


José João



Apenas... perdão


Minhas mãos se estendem aos céus como a pedir clemência,
Meu coração dispara em batidas fortes como se fossem gritos
Voando entre pedras e horizontes mas se perdendo no tempo
Sem rumo, sem rota e sem rastros.... assim como faz o vento

Que também não volta, se perde entre cercas, jardins e quintais
Cruza mares cantando com o tempo canções de amores perdidos
Atirando fora, sonhos que não deveriam terem sido sonhados
Mas foram, e até se fizeram de livros, que talvez nunca sejam lidos

Minhas mãos se estendem como súplica ou como oração rezada
Que não se sabe se vai ao céu, se será entendida, se será ouvida,
Talvez pela dor ter tomado o lugar da fé e a reza ter sido esquecida

Mas se ao céu chegar, como ladainha santa de um coração sofrido
Não há de se pedir nada que possa fazer tudo perdido, tudo em vão
Só o que alma quer pedir, por ter amado tanto, é apenas perdão.


José João




segunda-feira, 28 de maio de 2012

Minha conta


Minha conta, paga-la talvez não possa nunca
Quanto em lágrimas seria para pagar tanto?
Se desde muito até minha alma comigo chora
Mas de onde? De onde? Tirar todo esse pranto?

Absurda conta a mim cobrada, e até não sei
Porquê de tanto debito, e onde foi que errei
Entreguei tudo como louco e apaixonado amante
Até olhei com os olho dela e como nunca eu amei

Será que amar tanto assim é o mesmo que pecar?
Mas que mundo é este que faz de amante um pecador?
Julgado, condenado por ter vivido um grande amor

Essa tanta dor que a vida cobra não é uma remissão?
Esse grito na garganta chorando a perda, a solidão
Será que essa alma já não merece um perdão?


José João



domingo, 27 de maio de 2012

Quando a tristeza é maior


Silêncio lá fora, a noite engole todos os ruídos
Com se quisesse deixar a solidão à vontade
Para fazer a saudade doer mais que todo dia,
Fazer da tristeza um grito perene de dor e agonia

A noite, quando é doída, se faz passageira lenta
Do tempo que insiste em não passar, em ficar
Fazendo do pensamento um filme que faz lembrar
Momentos que se foram com um adeus, um chorar

Aí então os soluços voltam com sussurros e perguntas
De porquês que sem respostas só nos falam da ausência
Que nos deixam num espaço vazio por louca demência

Tudo fica tétrico, parado, os movimentos de perdem
O mundo gira trazendo as mesmas dores e recordações
Aí, o coração  pede clemência chorando novas orações


sábado, 26 de maio de 2012

Os gritos que ouço


Não sei se os gritos que ouço são do tempo,
Da solidão não podem ser, ela é sempre silêncio
Talvez, até sejam, da tão impaciente saudade
Que sempre se faz mais jovem, com nova idade

Sempre, em mim, saudades antigas voltam fortes
Como se fossem de ontem, buscando sonhos idos
Há muito perdidos, como ficam os velhos livros
Nos cantos derramados por tanto serem esquecidos

São gritos, que como ecos, parecem soluços da alma
Que chora perdida a falta de sonhos, que se foram
Como se a vida pela tristeza lhe tenha enchido de traumas

Que ficaram como cicatrizes, marcas de doídas feridas
Que o tempo não se preocupou de sarar, cicatrizar
E ficaram na alma como tristes orações em vão rezadas


José João



Só a alma sabe


Onde estás? Que te procuro nas canções que ouço,
Te procuro no voltear da brisa carinhosa como eras,
Te busco loucamente entre os sonhos e saudades
Aqueles sonhos que contigo eram  singelas verdades

Na verdade todos os sonhos me levam somente a ti
Toda essa triste saudade sentida, do coração à alma,
É toda e apenas tua, pois só contigo realmente vivi
Todos os momentos e sorrisos ainda estão comigo aqui

Como se insistissem em dizer, que ainda hoje, sou teu
Que ficaste como dona verdadeira de meus pensamentos
Que te fizeste única tomando todos os meus sentimentos

Mas onde estás? Te procuro nas estrelas, rotas infinitas
Te procuro muito além do pensamento, caminhos sem fim
Estou achando, querida, que ainda estás viva dentro de mim


José João





sexta-feira, 25 de maio de 2012

Guardo sozinho


Sonhei com teus sonhos como se fossem meus
Corri tuas estradas contigo como se fossem minhas
Sorri teus sorrisos, pensei teus pensamentos, tudo
Falava tuas palavras com a alma como se fosse mudo

Passado o tempo ficaram comigo o que não levaste
Apenas o que não quiseste levar, comigo deixaste
Saudade, disseste: Não quero. Sorriste do canto
Não o quisestes também, até zombaste do pranto

A solidão, sorrindo dissestes, que guardasse no quarto
A angustia disseste que guardasse toda dentro de mim
E as lembranças deixaste guardada naquele velho retrato

O adeus, não quiseste levar, ficou com minhas lágrimas
A história que pensei ser nossa, me disseste só minha
E a dor que me dói tanto, minha alma chora sozinha


Só a saudade não vai


Na vida me  foste bem mais que apenas mulher
Foste amada, foste amante, foste sonho e razão
Entraste em mim pelo destino e na alma tu chegaste
Dela, como se toda tua ela fosse de mim tu me tomaste

Não há idade no tempo, o amor pode nascer e logo ir
Não mandamos no destino nem em nossos corações
Talvez tudo já esteja escrito, até mesmo o amar-se tanto
Quem sabe quando ele nasce já com ele venha o pranto?

Não adiante pedir, negar, esconder-se, nem até mentir
Não adianta fingir, nem correr, nem voar, nem fugir
Quando se vai o amor, só a saudade com ele não pode ir

Fica como se a vida precisasse, para viver, de alguma coisa
Que parecesse um pedaço daquilo que se foi, e a saudade...
Esta não fica em pedaço, fica toda, como se fosse eternidade


José João




quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sombras


Meus pensamentos se derramaram no tempo,
Como de minha alma, se derramou o amor
Que um dia foi um rio-mar caudaloso e terno
Que se perdeu entre margens sem sombras
Por que lhes arrancaram todas as folhas.
Sem verde, como se nem esperança existisse,
Os sonhos partiram para outros horizontes,
Distantes, sombrios, como se as nuvens ficassem
Pesadas, molhadas por angustias, dores e prantos.
O coração em descompassado compasso gritava
Num pulsar violento, como se fosse uma convulsão
Da alma que se perdia entre orações rezadas sem fé.
O colorido se fez sem cor, sem matiz e o mundo
De uma cor só, se fazia um templo perdido
Que nem o eco de um grito de desespero incontido
Voltava. E as pedras de solidão, sólidas e amorfas
Se faziam de fantasmas vivos, como sombras
Furtivas, brincando na noite de espantar sonhos,
Que coitados, insistiam em ficar e lembrar,
Que um dia, já muito distante, a alma sorrindo,
Brincou de ser feliz, sem saber o que era chorar.


Vale chorar outra vez


Chorar momentos idos sem que querer lembrar
Que a vida , em lágrimas, também nos faz viver
Chorar, é um canto que nos serve pra dizer,
Que nem tudo é belo, que existe também sofrer

Mas chorar a dor da perda do que foi  amar
Não é propriamente chorar a dor que nos ficou
É estar em pensamentos por onde estiver
O amor que foi, que levou tudo e tudo nos deixou

Guardar  momentos que de nós nunca se foram
Dizem, é chorar outra vez o que já se chorou
Mas como não lembrar o que nossa alma marcou?

Lembrar doces carícias... beijos, trocados ao luar
Sentar na relva, olhar o céu esses momentos ir buscar
Não nos vale então o que se chorou outra vez chorar?





Rotas perdidas


Em minha frente o mar, misterioso, indecifrável.
Cheio de rotas ainda desconhecidas e nuas
(Rotas virgens por onde ninguém ainda passou)
Levando pensamentos, sonhos e dores cruas

Rota que se faz infinita por não se deixar marcar
Não deixa  rastros de ida, nem rastros de vinda
Para que os pensamentos perdidos não possam voltar
E a saudade se faça na alma apenas vontade de chorar

Infindo mar que com o vento canta canções perdidas
Embalando aventureiros sonhos que em outras rotas
Buscam aportar deixando ali as dores de suas feridas

Mas o tempo, ou destino,  brincando de cruel maldade
Ao aventureiro, ou desesperado coração viajante
Em cada porto faz outro sonho lhe deixar mais saudade



quarta-feira, 23 de maio de 2012

O silêncio cura


Se queres, mesmo distante no tempo, que chore tua saudade?
Eu choro. Se queres que grite teu nome bem alto, até o céu?
Eu grito. Se queres que te faça do meu mais sublime canto?
Eu faço. Afinal meu canto mais belo quem canta é meu pranto!

Se queres que corra entre o tempo, entre dores e lágrimas
Buscando sorrisos perdidos dos momentos que não vivemos?
Se queres que busque lá dentro da alma beijos que não trocamos?
Não posso. Não posso  viver agora momentos que não tivemos

Vou por outros rios, por outros mares, quase sempre bravios
Corro por outros sonhos que as noites em claro não permitem
Que sonhe. Vou por caminhos, veredas, e desconhecidos desvios

Se hei de buscar em horizontes distantes saudades dormidas...
Se hei de buscar sozinho em labirintos vazios  rastros perdidos...
Prefiro ficar dentro do nada onde o silêncio cura minhas feridas.

José João



terça-feira, 22 de maio de 2012

Eu. Um verso triste


Quem sou eu? Talvez seja um desses versos
Tristes que até agora ninguém ainda escreveu
Ou aquele verso escondido sem ter poeta
Que lhe escreva por que essa dor nunca viveu

Talvez eu seja aquele pranto que comecei chorar
Quando ainda era criança, ou nem era daqui
Quem sabe eu seja um sonho perdido no tempo
E ninguém quis sonhar por ser pesadelo ou tormento

Não sei, quem sabe eu seja uma verdade escondida
Ou um pensamento que alguém esqueceu de pensar
Por não valer a pena, por ser uma vontade perdida

Dessas vontades que ninguém se preocupa em guardar
Que deixa ao sabor do mundo indo pra nenhum lugar
Ficando como resto do que não se quer mais lembrar


José João


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cruéis lembranças


Desde quando me deixaste aquela saudade mortal
Tanta que até a alma chorou meus doloridos prantos
Ti mando ir, para bem longe, de onde não volta o vento
Mas teimosamente ficas como meu constante tormento

Fecho os olhos e mando o pensamento buscar sonhos
Sonhos novos, que me façam viver uma nova tentação
De querer viver, de viver histórias com final feliz
Mas infelizmente a última palavra é o coração que diz

Grito para alma que se afaste de ti,  que ti esqueça,
Que ti deixe para sempre, ficar no esquecimento do vazio
Mas tudo é mais forte até essa dor que talvez nem mereça

Fica em mim como maldita tatuagem que de mim não sai
Do peito, da alma, que em mim fica com lembrança mórbida
Como herança de uma história tão cruel quanto sórdida


José João



A dor de sempre


Ontem  a saudade foi mais forte que sempre
Assim como se o passado voltasse correndo,
Chamando meu nome nas canções antigas
Que alguém ouvia ... mas eu ouvia sofrendo

Voei em momentos divinos, em beijos, sorrisos
Abraços, perfumes, promessas, e aí... lágrimas
Que me chegaram em prantos como se o tempo
Ontem, tivesse na alma, buscado os tormentos

Me entreguei a uma rota de fuga como se a dor
Pudesse ser deixada para traz, se perdesse de mim
Como se toda a angustia da alma pudesse ter  fim

Fui correndo com passos bêbados entre escombros
Que juro, no chão, os vi caídos, como se perdidos
Mas eram as sombras do que carregavam meus ombros


José João








sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quando o amor se vai


Quem já teve corpo, coração e alma acariciados
Por beijos indecentes, inocentes e até divinais
Beijos feitos de nuvens singelas em lábios ardentes
Beijos de sonhos, de vida, de  momentos reais

Em que a sofreguidão da alma, louca pelo desejo
Fazia de eterno, de inebriante o sabor de um beijo
E se entregava toda  por tanto,  por tudo e sem medo
Gritando para o mundo ouvir e contar seus segredos

Quem já teve corpo, coração e alma em êxtase divino
Em beijos sugados, molhados com gosto de céu e vinho
Indo do corpo ao coração e à alma em um só caminho

Quem esteve entre os braços macios de um anjo mulher
Quem perdeu por apenas perder sem nunca esquecer
Que importa que agora a vida lhe faça um ninguém qualquer?



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ecos do grito da vida


Meus olhos, as mais puras janelas da alma
Se abrem para minhas lágrimas, e elas vão
Como rezas procurando caminhos para o céu
Gritando e levando as dores sentidas no coração

Meus gritos se misturam com o vento sem rumo
Indo para qualquer horizonte, sem sul e sem norte
Como um bêbado perdido em qualquer vazio
Ou estrada sem chão, que o distancie da sorte

Minhas lágrimas, meus gritos, minha alma e a solidão
Dos gritos o eco atrevido se faz de rebelde oração
Dizendo que a dor que sinto não tem nenhuma razão

As lágrimas, a alma chora sozinha a carência atrevida
Como se a solidão se fizesse de tempo e espaço
Ou por pura maldade se fazer de eterna dona na vida


José João



domingo, 13 de maio de 2012

Na despedida não...


Talvez sejam nossos hábitos ainda fortes,
Como tu dizes que são, que nos prendem ainda.
Talvez, como dizes, tenhamos nos acostumado
Até com nossos próprios defeitos. Costumes apenas,
Mas em mim, lá do fundo da alma, ouço um grito...
Ou um pedido, não sei, que diz: Fica.
Sei que não queres, mas quando fores
Na hora de dizer adeus, não diga nada
Deixe que o silêncio fale por nós dois
Vou até fingir sorrir pra me enganar
Mas se os olhos não fingirem...
Deixa que digam o que não pude falar.
Se minha voz tremer... não diga nada.
Se um soluço embargar minha voz
Finja que não ouviu. Se meu rosto me trair
Entre chorar... entre sorrir. Não diga nada
Mas se teus olhos se encontrarem com os meus
E uma lágrima cair... aí está o meu adeus.


José João


Ilusão, apenas ilusão


Os meus sonhos agora são presságios
Amor e destino escreveram pesadelos
Como se nada mais fosse preciso
Como se a vida fosse feita pra vive-los

Assim minha alma chora em plena primavera
Deitada na relva, acariciada pelo vento
Que lhe beija docemente e pergunta da tristeza,
Mas a alma apenas geme a dor eterna do momento

E eu? Menos alma, mais gente e mais pecado
Grito em desespero as mentiras do amor
Ilusão passageira, mentirosa em que a dor
Se faz de vida e vai onde a gente for

Eu! Que tantos sonhos sonhei e colori
Que tantas histórias lindas, a mim, me permiti
Pensar, criar, me permiti sonhar para viver
Hoje... não sei o que o destino me faz ser


José João

De onde vem


Ah! Essa minha mania de ser triste!
Sem saber de onde vem essa tristeza
Me pergunto então de onde vem:
Essa dor que me sufoca,
Essa tristeza que me invade
Essa vontade de chorar?
De onde vem
Essa vontade de ir embora
Sem estradas, sem caminhos
Sem saber onde chegar?
De onde vêm
Essas lágrimas que choro
Essa dor tão descabida
Que me deixa sem pensar?
De onde vem
Essa tristeza no olhar
Essa vontade de ser triste
Essa vontade de chorar?


José João

Brincando de fazer lágrimas




Ontem brinquei de fazer lágrimas,
Fiz lágrimas de solidão, lágrimas de saudade,
Lágrimas de tristezas, fiz até lágrimas sorridentes,
Estas pelas lembranças de amores vividos,
Sentidos, amores que me fizeram sorrir.
Brincar de fazer lágrimas é brincar diferente
Quase todos fazem as lágrimas iguais
Fazem as mesmas lágrimas para qualquer dor
Eu não, minhas lágrimas sabem seus motivos.
Enquanto muitos sofrem para fazer suas lágrimas
Eu brinco de faze-las, assim como um artesão
Que transforma com as mãos o pensamento em beleza
Que é vista com os olhos, eu transformo minha dor
Na beleza reluzente dos meus próprios olhos
Quando neles as lágrima saem efusivas
Na quantidade certa da emoção que minha alma sente
Minhas lágrimas saem por felicidade, rarissimas vezes,
Por tristezas, solidão, saudades, até por sonhos
Que não sonhei, saem por dores alheias
Saem até por dores que nunca imaginei.
Quase sempre brinco de fazer lágrimas, muitas lágrimas
Por dores sentidas, ou por dores que nunca chorei.
Fazer lágrimas é brincar de brincar diferente
Fazer lágrimas é como brincar de ser gente.


José João

sábado, 12 de maio de 2012

Esses pedaços de céu!


Hoje fui ver as flores se abrindo, pareciam anjos
Enfeitavam o jardim brincando de fazer Deus sorrir
E era tanta beleza, que com certeza, Ele ria sim
Ainda mais com aquele botão criança de  jasmim

Fiquei por horas contemplando tão belo milagre
Eram todas muito belas não sabia a que flor olhava,
Nos jardins, quando as flores se abrem para o céu
É como se fosse um quadro divino desenhado num véu

Toquei suavemente em algumas pétalas, pareciam sorrir
Parecia que me olhavam com aquele olhar tão inocente
Com aquele olhar de anjo criança que tanto cativa a gente

Os jardins! Maravilhosos sítios mágicos de infinita beleza
Trouxeram saudades, com meus prantos vindos do coração,
Pra deixar mais viçosas as flores, com eles reguei o chão


José João






Solidão, falsa carícia


A solidão como falsa amiga lambe as feridas da alma
Que essa mesma solidão em noites tristes, frias e claras
Se deixou ficar anfitriã contando histórias tão antigas
De saudades que o tempo havia feito de velhas cantigas

Falsa solidão soprando as cicatrizes que ela mesma fez
Cantando com o silêncio as canções que falam de dor
Como se fossem orações que alma depressa aprendeu
Desde quando, desde de muito, a ela essa dor se deu

Feridas vivas que se fazem chagas sangrando o coração
Que grita, que chora no mais descompassado pulsar
Como se sua vontade de viver se resumisse em chorar

Alma, coração, saudade e pranto em apenas um se fazem
Como se a vida, por mágica, lhes fizessem um corpo apenas
Banhado de dores como se estas fossem caricias amenas

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O náufrago


Pobre náufrago...
Levado ao sabor do nada,
Sozinho, no conflito de ir ou voltar
Perdido na nevoa angustiante do não saber.
Pobre náufrago... passageiro da tormenta
Entre duas forças que lhe oprime,
Lhe cansando o corpo e angustiando a alma.
De um lado o mar revolto lhe sugando a força,
Do outro, um vento frio que lhe corta o corpo.
Então se deixa flutuar... está perdido,
Não tem caminhos, não tem rastros,
Que lhes façam ir ou voltar, é melhor deixar
Que o vento e o mar dele se esqueçam
Por não saber se entre os dois
Haverá um vencido... haverá um vencedor.
Assim vai o náufrago sem saber pra onde
Quem sabe no horizonte encontre um porto
Que seque seu corpo e acaricie sua alma
Enquanto o vento e o mar disputam entre si
Aquele pedacinho de sol, que o náufrago.
Coitado, um dia sonhou possuir.


José João

Quando é belo o pranto


Que a chama aquecida pela saudade
Em mim seja eternamente duradoura
Que jamais o calor ardente dessa chama
Se apague ao amor que ainda me chama

O eterno é a intensidade do sentir
Duradoura vai de mim até o infinito
E se no tempo a chama enfraquecer
Não permitirei em mim ela morrer

Gritarei bem alto como grita o coração,
Ao mundo, a louca vontade de amar
E essa vontade que de mim sai aos gritos
Fará essa chama, nunca, nunca se apagar

Assim sempre em mim ela estará viva
Chama ardente que nenhum vento pode apagar
Ainda mais que tenho a saudade a me lembrar
Que o pranto é belo quando chorado por amar.


José João

Tu. A asa que perdi


Qual ave inerte no chão caída
Que alçar voo é apenas um sonhar
Triste e pequena ave de asa partida
Que por canto, tem apenas o seu chorar

Quantos sonhos, coitada, lhe vêm agora!
E a liberdade perdida de poder voar
Em mudo canto ao distante céu implora
Que o vento a leve a qualquer lugar

Em desespero se entrega ao pranto
Moribunda ave de asa partida
Até o céu lhe perdeu o encanto
Já não lhe importa a própria vida

Supremo esforço. Voar a ave tenta
Como se o espaço lhe trouxesse a vida
Mas coitada, a asa não lhe aguenta
E triste ao mundo se dá perdida

Tu és a asa que de mim tiraram
E assim fiquei indefeso e triste
Mas és os sonhos que em mim  ficaram
Tu és o sempre que pra sempre existe


José João

Impossível esquecer


Quanto mais o tempo em mim se faz passar
Mais ainda em mim aumenta a vontade de lembrar
E mergulho no passado como num mar adormecido
Que jamais, em momento algum, na alma foi esquecido

Meus momentos de pensar são como do mar as ondas
Que vão e vêm como se o próprio mar embalasse
Que levam e trazem momentos de saudade infinda
Que de terno e doce mistério hoje se cobrem ainda

Mas ainda que mistério esse  passado me terá?
De qual momento não fui capaz de me lembrar?
Será que a saudade por omissão ou esquecimento
Não o trouxe, ou eu que a ele não estava atento?

Se foi minha culpa, bem difícil a mim me perdoar
Afinal como pude de mim mesmo me esquecer?
Bem sei que minha alma por esses momentos reclama
E sempre diz: Não esqueça, para que possamos viver


José João

Minha alma triste


Minha alma é triste como ave perdida
Que sozinha voa a lugar nenhum
Minha alma é triste como flor podada
Atirada ao chão sem enfeitar mais nada

Minha alma é triste como a andorinha
Caída ao chão, coitada, sem poder voar
Lhes quebraram as asas por cruel despeito
E ela triste pedindo ao tempo: vem me matar

Minha alma é triste como triste é o rio
Morrendo aos pouco por tão longo estio
Minha alma é triste como a mãe que chora
A perda do filho que lhe foi embora

Minha alma é triste como badalar do sino
Que o exilado, a Ave Maria, reza sozinho
Minha alma é triste como triste é o canto
Que vem misturado entre soluço e pranto

Asim minha alma, que já nem sei se existe
Mesmo com essas dores vivas em viver insiste
Mas que vida que lhe mata aos poucos!
Ou que lhe impõe a viver como vivem os loucos


José João

Quem sabe um dia...


Que súplica terá ainda minha alma
Que fazer ao tão cruel desespero?
Até mesmo as tantas tristes lágrimas
A ele não serviram nem de apelo

Que punição a mais será imposta
Que sentença a mim será devida
Pelo desespero que me arrasta
Consumindo minha própria vida?

Que mal fiz eu ao meu destino?
Ou a mim mesmo que mal me fiz?
Será que a culpa é só minha
Por não conseguir ser feliz?

Choro, luto mas não vou implorar
Até espero sentado no meu pensar
Que um dia o desespero se esvaia
E outra vez, sorrindo, volte a amar.

Pra que retórica?



Meus poemas não seguem regras da gramática,
Nem a frieza métrica da marca da medida certa
Meus poemas falam de nós, os que com o coração
Falam da vida, essa filosofia as vezes vã e incerta

Meu poema, muitas vezes, é verdade metafórica
Quando diz que os soldados das flores existem
Com sua afiadas espadas e com inocente bravura
Espinhos em riste, touché, heróis de divina loucura

Meus poemas não têm lógica é  feito coisas do coração
Meus poemas fogem da razão mas não são irracionais
São apenas pedaços de vida, de tempo e de paixão

Meu poemas são escritos em qualquer papel, até de pão
Mas sempre buscando o belo, coisas que me vêm do céu
São tão simples que os escrevo até em guardanapos de papel


José João

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A chuva chora comigo


Chove lá fora, e solidária, comigo a chuva chora
São tantas lágrimas, que lindo é nosso copioso pranto!
Do tamanho dessa minha dor, dessa minha tristeza,
Sozinho, não fosse a chuva, não  saberia chorar tanto

Chorar comigo e deixar que o pranto tuas águas levem
Por sobre pedras,  fontes, jardins e leva-lo às nuvens
E de lá, o vento, carregando leve entrega-lo ao mundo
E sobre o mundo, dispersos caírem, como um cantar mudo

Em que distante horizonte se foram esses prantos meus?
Será que como eco dos gritos que minha alma, coitada, deu?
Ou como orações que querem chegar bem  perto de Deus?

Só sei que em qualquer lugar que cair a chuva com ela cai
Meus prantos que, pela dor de uma saudade, ao mundo grita...
Um dia talvez se juntem com outros prantos de outra alma aflita.


José João






Deixem meu silêncio em paz


Deixem meu silêncio calado dentro de mim
Deixem que dele, minha alma lhe cuida os prantos
Que por mim chora, sem alarde e sem fragor
Fazendo-se, por tão sutil, de prazeroso clamor

Deixem que minha voz se faça palavras mudas
Que meu pensamento, ao silêncio, se faça abrigo
Deixem que as dores se escondam no vazio atroz
No vazio de mim,  loucura insana de animal feroz

Deixem que meu silêncio se torne vivo por não falar
Mesmo cobrindo a alma de chagas vivas que vão chegar
Por que essa tanta dor não é história para se contar

Que seja meu silêncio um canto que só eu possa cantar
Mesmo um canto triste, desses que se chora ao ouvir
Desses que fazem a tristeza ir muito além do existir


José João






segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vida. Um mundo misterioso


Á! mundo, estranho e desconhecido mundo!
De horizonte distante que nem em sonhos eu vi
Ainda assim vão minhas lágrimas viajantes
Voando nas asas leves da poesia que escrevi

Cada palavra, é um pensamento voando solto
Entre nuvens e oceanos, como ave de arribação
Alçando voo em perdidas rotas de bravios mares
Buscando os coloridos cantos de outros lugares

Onde, quem sabe estejam, os sonhos perdidos
Que partiram um dia nas asas do vento norte
A pagar promessas que a vida chama de sorte

Mundo onde distância e tempo se fizeram retas
Onde os passos morrem por não ter caminhos
E os desejos... morreram em seus próprios ninhos


José João


domingo, 6 de maio de 2012

A casa da poesia triste


Comecei a fazer uma poesia sem versos
Ficou parecida com uma casa sem ter paredes
Comecei a fazer uma casa sem teto e sem chão
É o mesmo que uma poesia sem alma, sem coração

Ah! Essa minha casa! Sem portas e sem janelas
É como se os lhos não permitissem a alma chorar
A casa ficou escura, uma fresta de luz não pode entrar
É como se a tristeza não permitisse a alma se expressar

Essa casa não tem varanda nem mesmo tem um jardim
Não tem um jarro com planta, mesmo uma planta sem flor
É o mesmo que uma poesia triste que não fala de amor

É um casa onde um silêncio tão grande se faz até de oração
Uma casa sem paredes, sem teto, sem janelas e sem chão
É uma poesia onde todas as palavras rimam com solidão



sábado, 5 de maio de 2012

A vida não é um circo?

Lá vão meus pensamentos dando cambalhotas
Subindo, pulando fazendo do tempo trampolim
Lá vão meus olhos querendo domar as lágrimas
E elas se fazem mágicas brincando de não ter fim

E a saudade? Feita palhaço, rosto pintado de tristeza
O sorriso entrou na cartola  e dela saiu chorando
A alegria vestida de borboleta queria contar histórias
Mas chegou a solidão querendo contar suas memórias

E a vida! Vestida de bailarina rodopiava em seu salto
Chamando o destino que galopava em um sentimento
Que era um velho palhaço aposentado pelo tempo

Tudo uma ilusão só. Ilusão assim como uma mágica
Ilusão dizer que a felicidade é maior do que um cisco
Ilusão é dizer que viver não é o mesmo que morar no circo


José João


Um livro antigo

Sentar na porta do tempo, folheando o livro do passado
Buscando páginas perdidas com poesias inacabadas,
Poesias que se fizeram  momentos vivos de tão intensos
Mas parece que as páginas, pelo tempo, foram apagadas

Mas os rascunhos em rasgadas folhas com ilegíveis letras
Se fazem ao tempo de lembranças vivas mas quase mortas
Como fragmentos que nada dizem da verdade de uma vida
Que se confunde com meros sonhos de uma história lida

Mas como o tempo se faz  sempre  caminho para saudade
Buscando lembranças antigas, revivendo histórias sem ter idade
Invento momentos novos que a vida permite  por caridade

Mas lá atras, bem onde eu sei, que vivi um dia que não volta mais
Fico vendo em imagens turvas, em desenhos tristes, o que sofri
Então de mim mesmo e escrevendo, só fiz outro livro  que nunca li


José João









Canto ou Pranto?


Canto o que nem sei mas é preciso
Talvez com o canto a tristeza vá embora
Levada pelo vento não importa para onde
Com ela nem o eco do meu canto me responde

Não que importe ouvir meu canto
Que de saudade é mais um pranto
Que em sussurros se solta ao tempo
Como tristes ais, como um lamento

Que à atoa vai a lugar nenhum
Como um sonho levado pela noite
Que se perde ao tempo e não volta mais
Por que o encanto lhe ficou pra traz

Meu canto é triste como a flor perdida
Que desperta só num cruel deserto
Ou como um fiel que esperou por Cristo
E não lhe viu por não estar desperto

Dona de mim


Ah! Saudade que de morada me fez a vida
Que me entrega as noites como se dela elas fossem
E me acorda os ais em gemidos que de tão tristes
Me deixa sem saber até onde ela em mim existe

Me traz um pranto que mais parece um pranto
Até minha alma, perdida no tempo, comigo chora
Nem se importa, a cruel saudade, se a alma implora
Por um sorriso, que ela irônica, o manda embora

Morto o sorriso, num rosto triste, port tanta dor
Que até os olhos perderam o brilho e mudaram a cor
Que de luzentes como pingos d'água brilhando ao sol
Ficaram frios, com tristes beijos, sem ter sabor

Que hei de fazer? Pergunto ao tempo que não responde
E as claras noites não me permitem nenhum sonhar
Mas o silêncio que em qualquer hora o vazio deixa
Me diz bem claro que o que me resta é só chorar...

José João

Sonho viajante


Vai sonho. Vai em busca de tua verdade
Perdida dentro do tempo e dos prantos
Vai que ti espero como se fosses voltar
O mesmo sonho, como se buscar fosse encontrar

Vai, busca teu tempo  perdido e sem cor
Desbotado que foi pela saudade incontida
Da perda que há muito é tanto sentida
Como se o passado ti fosse o carrasco da vida

Vai. É doída a saudade mas tem que existir
E se doem as lembranças que haverás de fazer?
Sonha, Sonho, teus sonhos, ou haverás de acordar
Em frias noites perdidas me fazendo chorar

Ah! Sonho perdido e em tristes pedaços partidos
Como se fosse de mim, soltas lembranças perdidas
Fragmentos opacos sobre pranto no chão caídos
A quem o tempo tornou pobres prazeres vencidos


José João


sexta-feira, 4 de maio de 2012

De tão só...


Romper as fronteiras
Que meus receios construíram,
Sangrar o vazio como se nada ele fosse,
Deixa-lo caído como cinzas perdidas
De um tempo passado que a alma marcou.
Quebrar as correntes e correr no espaço
Voar como livre em qualquer direção,
Sentir o vento batendo no rosto
Em doces caricias que nem lembro mais.
Perdido os anseios por tantos receios
De viver outra história e ter que chorar
Um adeus, uma angustia, como tanto chorei
Que até a saudade por tanta piedade
A mim se entregou.
Ouvir de outros lábios o que tanto ouvi
Um olhar me gritando o que nunca esqueci,
Promessas etéreas. Verdades, pensei,
Não poucas, são muitas e por muitas
São tantas as dores sentidas. vividas
Que em qualquer vazio de mim me escondi
Mas sem que buscasse, de repente e sublime
Uma doce emoção me faz despertar,
Rompendo fronteiras, pisando meus medos,
Sucumbindo os conflitos,  me faz delirar
Então me entrego sem reserva qualquer.
De tudo esquecido, começo daqui
Outros sentidos povoam meus sonhos
E se outra vez tiver que chorar
Que não chore sozinho. Que esteja contigo
Minha fel solidão.

Amor... esse eterno amor


Oh! Bela e terna dona de tão fino trato
Tês do lírio, fiel, do amor o retrato
Por mero e tão caprichoso destino
Dos teus braços, triste, agora parto

Que sorte infeliz que logo agora
Desfrutando deste seio qual aurora
Em fria noite de outono sem que queira
Me mandas, furtivo, ir embora

Oh! Lábios perfumado de jasmim
Ardentes seios cor da açucena
Lenço em tristes lágrimas bordados
Que de longe o mais triste adeus acena

Eu que parto nos tristes raios do madrugar
Como se dali, apenas minha vida pra chorar
Em passos lentos como se não quisessem levar
Minha alma, que triste,  insiste em ficar

Oh! Bela aurora que a manhã vem despertar
No hálito quente que da lua ao sol se deu
Num espreguiçar de raios, que teimosos
Pareciam-se comigo, tão tristes quanto eu

Mas que caminhos poderia então seguir
Se de mim mesmo parte vital aqui deixei?
A bela dama emoldurada em meu pensar
Não esquece-la pela própria alma jurei

E hoje quantos tempos se passaram!
Desde quando me impus tão cruel sina
De viver eternamente sem que pudesse
Outra vez ver o rosto de minha mulher menina

Mas não há que o tempo ou o eterno
A mim, me dobre, me fazendo esquecer
Da dama, o perfume, aquele calor ardente
Daquele corpo onde hei de me  aquecer

E se atroz destino, indolente, assim houver
Que me faça ainda em tamanha dor viver
Não vou chorar a dor que cruelmente me impõe
Mas vou amá-la até depois que morrer.

José João

O canto da cotovia


Ao longe uma canção desperta o dia,
Em tristes acordes de serena harmonia
As plantas dançam ao som da melodia
Abraçadas ao vento que não nega companhia

O barítono em lírico solo canta triste
Como há muito tempo minha alma não ouvia,
Quem com doce canto ao coração extasia?
É o cantar saudoso e terno de uma cotovia

Me aproximo e a ela elogio em tom solene
Cotovia, que belo, que lindo como estás cantando!
Ela me olha dentro dos olhos e a cantar responde
Para uns canto, para outros estou chorando

- Sou assim como tu, ninguém sabe quando choro
- Então não dizes o que tua alma está sentindo?
- Não choro só a minha dor, também choro a dor alheia
- És poeta, agora sei, Como falas da mentira fingindo!!


José João

Orações... pra quê?


Gritar lá de dentro de mim com gritos e lágrimas,
Com soluços, com blasfêmias, desespero e dor.
Gritar, gritar como se o grito me fizesse respirar,
Me fizesse cansar para dormir, não sonhar e esquecer.
Um denso vazio me toma, corro entre meus pensamentos
E apenas pergunto: Porquê? E a resposta se perde,
Por nada ser dito. Ninguém sabe responder.
Na verdade, minha  resposta é essa dor que sinto,
Que me fere do coração à alma como se essa angustia
Fosse um punhal  lhes fazendo dolorosas tatuagens eternas.
Grito em orações antigas, grito em orações novas
Que a solidão me faz criar. Grito em rezas e ladainhas,
Grito com a alma, Grito com a própria vida: Volta.
Caio de joelhos extenuado, rosto molhado, prantos,
Soluços que se perdem em sussurros dementes
E todas as orações que rezei ficaram por aí
Não foram ouvidas, mas essa dor... essa dor
Que se faz viva dentro mim, me fazendo apenas estar...
  ..........................................................................
Foi assim que tua eterna ida me deixou a vida! Vida?!

José João




Sujeito...



 ... Se eu fizesse parte de um verso
Seria palavra solta, sem sentido, sem razão
Seria uma palavra que, mesmo no fim do verso,
Nada diria, seria um verso sem  gosto, sem rima,
Seria um verso atirado ao tempo sem nada dizer.
E se eu fosse a palavra do começo do verso?
O verso nem existiria, não seria escrito
Eu não seria a palavra para começar a dizer
O que no verso poderia ser dito.
Se eu fosse a palavra do meio do verso
A verso teria começo e teria fim
Não teria meio, ele seria um pedaço vazio de mim
Não posso ser verso, então poesia não seria,
Talvez eu seja apenas um pensamento
De alguém que se esqueceu de pensar,
Que nada escreveu por nada querer contar.
Talvez, quem sabe, eu seja a lágrima
Que alguém esqueceu de chorar...não
Acho que só eu lembro de mim.
Talvez eu seja a saudade de mim mesmo
Querendo me encontrar... ou talvez
Eu seja uma história que nem aconteceu
Para que ninguém saiba quem sou eu.
Talvez eu seja produto da ilusão de uma mente
Que nem sabe se de verdade eu sou
Um sujeito oculto, ou sujeito inexistente.

José João








quarta-feira, 2 de maio de 2012

Que artista pintaria...


Olhos fitos no horizonte como se a vida dali viesse
O mar canta em sussurro uma modinha desconhecida
E a gaivota em leves volteios dança graciosa e solta
Brincando com brancas nuvens a olhar enternecida

O sol parece querer entrar no mar e nele esconder-se
Ou talvez até, quem sabe, faze-lo passarela para ir-se
Em outro horizonte e lá brincar também de sol-poente
E amanhã voltar de outras cores risonho e mais contente

Me ponho a ver o mundo que a natureza sem pincel
Pinta,  esculpe sem régua, sem compasso, sem cinzel
Como se o mundo fosse uma folha virgem de papel

Que mágico artista! Que gosto, que talento que destreza!
Apenas com o pensar, acho, produz tamanha beleza!
Será que em cores vivas ele pinta toda essa minha tristeza?





Minhas lágrimas


Minhas lágrimas me envergonham tanto
E só não fazem mais por que algumas vezes
Elas caem pra dentro de mim.
Minhas lágrimas são fáceis,
Bem mais que aquela prostituta
"Que se troca por um sonho de valsa
Ou um corte de cetim". Elas não precisam
De tanto, para se entregarem ao mundo.
A elas basta um sonho, até mesmo um sonho
Que poderia vir só amanhã...
Minhas lágrimas até  pela saudade de um adeus,
Um adeus que pode não acontecer. São fáceis,
Estão ficando até vulgares, antes escolhiam
A dor, a saudade que queriam chorar
E mandavam os soluços me avisar
Me preparavam para poderem sair
Belas, brilhantes, tristes, caudalosas no meu rosto
Sempre juntas como se fossem uma só
Como se quisessem um comprimento
Para medir o meu sofrer,
Hoje, tão fáceis, não saem mais juntas
Parece que disputam entre si a primeira que vem,
Entretanto, acho que as entendo, talvez
Elas queiram sair logo para terminar com elas mesmas,
Como se quisessem me deixar vazio delas,
Pensam que sem elas pra me fazerem chorar
Eu não sofra mais. Minhas pobres lágrimas!
Assim elas se transformaram em inocentes prostituas
Sem saber que nunca se acabarão em mim


José João

De sonhar... não me nego


Jamais um meu sonho foi esquecido de sonhar
Jamais a meu pranto me neguei doce chorar
Jamais não permiti a saudade de me abraçar
E jamais permitirei minha vida sem um amar

Prantos e saudades em mim fazem morada
Sonhos e vida, à minha alma, deixam enamorada
Entretanto a vida, em mim se faz por existir
Por que sonhos e saudade são momentos que vivi

E que momentos que o tempo não faz passar
Traz consigo o esquecer que insiste em ficar
Mas vem doce saudade e me desperta o lembrar
E vigilante não me deixa o esquecimento chegar

Guardiã, a saudado, que é do meu passado
Me marca o sonhos e jamais sai do meu lado
Em meu corpo, do próprio tempo, sinto a revolta
Como vingança por trazer meu passado de volta

Em mim o tempo jamais aumentará qualquer distância
Inexorável para o eterno todo dia me levanta
Em igual intensidade trago o passado comigo
Que mesmo sendo pranto ainda assim ele me encanta


José João
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