sábado, 26 de fevereiro de 2011

Dois momentos





Lamber as cicatrizes da alma
Com a lingua dos olhos
Encharcada de saliva cristalina
Tão brilhante quanto triste
Como se a tristeza fosse luz.
Fazer do pensamento, passagem e passageiro
Entre cercas derrubadas, portas abertas,
Ou furando o concreto frio do esquecimento
E ir além, muito além da verdade,
Como se qualquer desejo estivesse
Em minhas mãos e a utópia
Fosse um mero acontecer.
Derrubar silenciosamente os muros da noite,
Invadi-lo de luz e fazer do medo apenas sombras
Pregadas nas paredes ou no chão
como se elas fossem simplismente minha vontade,
Ou me tornar transparente, límpiddo,
Como se eu fosse inocente ou a própria inocência
Incoerente passeando na noite
Como se o mundo e o tempo fossem meus.
Chutar o vazio, ironizar a solidão
Como se ela fosse um bêbado demente
Andando entre as sarjetas da rua
Que por mais larga é sempre estreita.
Derrubar os muros de pedras, e de adeus
A angustia, e se entregar outra vez
Aos novos sonhos como estradas abertas,
Sem rastros por ainda serem virgens,
E neles calcar os pés em marcas profundas
Deixando uma trilha para ser encontrado
Como se a vida começasse agora,
Ao sentir que os rastros não se fizeram
Distância, se fizeram um momento
De encontro e entrega.


José João

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